Skip to content
repertório dos paradigmas de som

De Edison aos nossos dias

Reprodução de som e reprodução de imagem nasceram aproximadamente pela mesma época, em finais do século XIX (quem diz reprodução, pressupõe registo); tiveram vários pais simultâneos, cada qual com percursos e recursos independentes – estava na ordem do dia a necessidade de inventar novos meios de representar a realidade. Sucede, portanto, que os modernos meios de registo de som e imagem nasceram gémeos, embora separados; só mais tarde foram reunidos e geraram novas expressões de arte – nomeadamente o cinema sonoro.

Hoje, diversas disciplinas podem concorrer no objecto sonoro:

Intonarumori, invenção de Luigi Russolo, 1913 (imagem recolhida de Le Senghor). Foi, tanto quanto sabemos, a primeira tentativa de criar uma máquina que permitisse trabalhar com base nos ambientes sonoros urbanos. Uma obra de Russolo pode ser ouvida no Youtube (consultada em 30-09-2021).

A partir da década de 1950 deram-se três revoluções no mundo do som:

  1. Electroacústica e electrónica; edição e mistura
    1. Invenção e comercialização da gravação em fita magnética; criação de meios técnicos que permitem a montagem do som gravado, ou seja, captar as ondas sonoras, transformá-las, retalhá-las e recontextualizá-las.
    2. Invenção dos sintetizadores, instrumentos electrónicos capazes de produzirem sons a partir do «nada».

      Estes dois conjuntos de meios técnicos permitiram inventar formas qualitativamente inovadoras de construir sequências sonoras e trouxeram para o som os dois aspectos seminais, do ponto de vista material, da arte contemporânea: o corte e a colagem. Nunca na história da humanidade tinha sido possível pegar na representação materializada de um som ou de uma sequência sonora e transformá-la, retalhá-la, voltar a colar os pedaços de som assim obtidos, para construir uma nova realidade sonante.
  2. Síntese e edição digitais
    Na era digital são introduzidas novas técnicas que geram saltos qualitativos na manipulação do som. Além disso, o embaratecimento dos meios de produção de áudio e vídeo, referido por muitos autores como «democratização»1, iria revolucionar a produção audiovisual.
  3. Estudo, investigação e concepção interdisciplinares
    A partir da década de 1990 desenvolve-se uma nova forma de abordar o som: rompe-se o círculo estreito da perspectiva musical e acústica e demonstra-se a possibilidade de analisar o som de forma interdisciplinar, envolvendo a arquitectura, a antropologia, a medicina, a paisagística e ambiente, etc.
    Esta abertura do âmbito da visão dos fenómenos sonoros retira o sonoplasta do seu gueto musical e técnico, onde estava confinado como se o som fosse um mundo à parte da restante realidade social, e disponibiliza-lhe uma visão mais vasta, totalmente integrada, em que já não é possível separar o entendimento do som do entendimento das práticas quotidianas, sociais, culturais, políticas.

A abordagem interdisciplinar obriga-nos a um reposicionamento em toda a linha, liberta-nos das considerações meramente estéticas e favorece um reforço da relação entre pensamento e acção, ou seja, põe em relevo uma ética do som. O conceito de sons «bonitos» ou «feios» deixa de fazer sentido – o que passa a saltar à vista são as relações sociais e culturais envolvidas nos fenómenos sonoros.

A abordagem interdisciplinar obriga-nos a recolocar em questão dados que pareciam adquiridos. Assim, por exemplo, verificamos que um músico de orquestra pode viver uma vida inteira no meio de 50 músicos, todos a tocarem em fortíssimo ao mesmo tempo, num ambiente de considerável pressão acústica; ora, aparentemente, qualquer pessoa sujeita a tais níveis diários de pressão acústica durante uma vida inteira deveria entrar em stress e desvairar, conforme comprovam inúmeros estudos (nomeadamente a medicina do trabalho e as práticas torcionárias das polícias políticas). E no entanto ela não enlouquece, simplesmente porque os cânones culturais atribuíram à música um «valor bom».

A ética do som

Em 1966 Pierre Schaeffer, em Traité des objets musicaux (Tratado dos Objectos Musicais), rompeu a distinção entre ruído, som e música, fundando uma nova musicologia. A publicação desta obra, juntamente com os seus trabalhos de música concreta, despoletou novas vias na elaboração teórica e artística.

No início dos anos 1970, surge o conceito de paisagem sonora ou soundscape. A construção de paisagens sonoras implicava, por sua vez, o estudo dos ambientes – do ponto de vista natural, sociológico e urbanístico. Deu-se assim mais um passo na ligação entre análise e intervenção (Bernard Delage; Murray Schafer) – analisar uma paisagem sonora implica intervir nela, transformá-la.

Em suma, o ambiente sonoro pode ser objecto de duas operações: análise e transformação.

 


Notas:

  1. O termo «democratização» parece-me rebuscado, pois passa por alto uma questão fundamental: os produtores de registos sonoros são consumidores de aparelhagens industriais, das quais dependem para fazer o seu trabalho. Ao contrário dos pintores e demais artífices da Renascença, não têm qualquer poder sobre a concepção, produção e formas de utilização dos seus meios de produção. Para retomar as palavras de Vilém Flusser, são funcionários do aparelho que usam – o que, convenhamos, é uma situação que se encontra mais próxima da burocracia do que da democracia, se quisermos seguir as pegadas, algo poéticas, de Flusser.
Rui Viana Pereira, 2000 ► última revisão: 13-05-2026
visitas: 0
This website is using cookies to provide a good browsing experience

These include essential cookies that are necessary for the operation of the site, as well as others that are used only for anonymous statistical purposes, for comfort settings or to display personalized content. You can decide for yourself which categories you want to allow. Please note that based on your settings, not all functions of the website may be available.

This website is using cookies to provide a good browsing experience

These include essential cookies that are necessary for the operation of the site, as well as others that are used only for anonymous statistical purposes, for comfort settings or to display personalized content. You can decide for yourself which categories you want to allow. Please note that based on your settings, not all functions of the website may be available.

Your cookie preferences have been saved.